Na minha longa caminhada pelas estradas da terapia de família e de casal, tenho me deparado com frequentes queixas dos casais acerca do sofrimento desencadeado pela traição de um dos cônjuges.
Vou salientar que me referirei aos casais com contratos conjugais monogâmicos, isto é, aqueles que privilegiam a exclusividade de se relacionar com um único parceiro, diferentemente dos casais que possuem contratos que possibilitam um relacionamento aberto, o que inclui vínculos sexuais com outras pessoas fora do relacionamento conjugal, desde que permitido por ambos os parceiros.
Quando alguém trai seu parceiro, conhecemos esse ato como infidelidade. Mas o que se entende por infidelidade?
Segundo Carvalho Toledo (2020), devemos começar definindo o termo fidelidade, que vem do latim fidelis e significa aquele que inspira confiança, que é sincero, seguro e constante. Já para infidelidade, não há uma definição consensual.
Esther Perel (2017) define a infidelidade como uma relação secreta, uma conexão emocional e/ou sexual, caracterizando uma transgressão ao contrato conjugal.
A infidelidade ocorre quando um dos parceiros acredita que o contrato de fidelidade ainda está vigente, enquanto o outro o está descumprindo.
A ruptura desse contrato traz à tona sentimentos que geram imenso sofrimento para o cônjuge traído e também para aquele que o quebrou. A descoberta da infidelidade dispara uma crise, e a intensidade desta geralmente se relaciona com a quebra de valores que foram desrespeitados.
Sentimentos de humilhação, raiva, vergonha, culpa, impulsividade e descontrole emocional, além de desconfiança, cobranças e desejos de vingança, permeiam a relação conjugal, principalmente para o cônjuge traído. Já aquele que trai é frequentemente inundado pela culpa.
A seguir, vou ilustrar com um exemplo de um caso por mim atendido há algum tempo.
Trata-se de um casal por volta dos quarenta anos que vivenciou uma crise após a descoberta, por parte da esposa, de um caso extraconjugal do marido. Virgínia (nome fictício) era minha paciente individual e procurou atendimento porque queria esclarecer suas dúvidas a respeito do marido, que nos últimos meses havia mudado. Ela o sentia distante e, às vezes, o surpreendia olhando outras mulheres. Culpava-se por isso e pensava estar acometida por sentimentos paranóides ou exagerando em suas desconfianças.
Em determinado momento, recebi uma mensagem perguntando se eu poderia atendê-la fora do seu horário, pois estava muito mal. Abri um espaço para ela no mesmo dia. Virgínia me contou que estava extremamente cansada, pois havia passado a noite em seu carro depois de ter descoberto uma mensagem de uma moça no celular do marido. O teor da mensagem revelava muita cumplicidade, e ambos eram colegas de trabalho.
Naquele momento, ela estava tomada por ódio e humilhação e me disse que voltaria para casa apenas para fazer sua mala e ir embora. Era um momento de muita dor, e a impulsividade tomava conta dela. Acolhi seu sofrimento e, após ajudá-la a refletir sobre a decisão de ir embora sem conversar com o marido, ela decidiu retornar para casa.
Eles conversaram e decidiram iniciar sessões de terapia de casal. Miguel (nome fictício) era um homem bonito e muito desejado pelas colegas de trabalho, segundo ele próprio relatou, mencionando o assédio que sofria. Foi em um desses momentos de assédio que decidiu ter alguns encontros com uma colega, uma mulher bem mais jovem que o casal.
Virgínia se perguntava o que estaria faltando nela para que o marido tivesse se envolvido com outra pessoa. Ele, por sua vez, respondia que não faltava nada, o que a deixava ainda mais angustiada. Após algumas sessões de terapia de casal, quando conseguiram examinar a dinâmica da relação conjugal, optaram por permanecer juntos e reconstruir o vínculo.
A crise foi então redefinida como uma oportunidade de crescimento. Decidiram investir na reparação e na recuperação da confiança, repensando o contrato inicial para construir uma nova relação, mais madura. Ou seja, a partir de uma percepção mais realista do vínculo, onde não cabem expectativas impossíveis de serem satisfeitas e onde o cônjuge traído pode sair da posição exclusiva de vítima.
Esse relato nos permite observar que a crise inicial pode evoluir para reflexões que possibilitam ao casal permanecer junto. No entanto, nem sempre os casais conseguem recuperar a confiança e acabam se separando, mesmo realizando terapia de casal, o que nos leva a considerar a complexidade das relações humanas e, especificamente, da relação conjugal.
Para finalizar, é importante salientar que a infidelidade não é independente do contexto conjugal. Há casais que vivem sem intimidade, absorvidos pelos filhos e pelo trabalho. Observa-se ausência de vida sexual, presença de segredos e conflitos não resolvidos, o que impede o diálogo e a proximidade. Nesses casos, a rotina pode substituir a busca pela novidade, tão importante em uma relação conjugal.
Bibliografia
Perel, E. Casos e Casos: Repensando a Infidelidade. Editora Schwarcz, Rio de Janeiro, 2017.
Zugman Mazer, T. Infidelidade: Impasses na Prática Clínica – Memórias, Reflexões e Integrações. In: Infidelidade Conjugal: Processos de Apego. Org. Daniela Bertoncello, Ana Luiza Antunes Cunha, Thelma Zugman Mazer. Artesã Editora, Belo Horizonte, 2020.

